Tirando o melhor da dor

Quem nunca experimentou dor”? Quem não sabe o que é uma dor de cabeça, uma “pontada” nas costas, um dente “latejando”, uma unha encravada, um ouvido infeccionado ou um dedão machucado? Ou seja, desde a dor mais “simples” até a dor mais aguda é um fato experimentado por todos os seres humanos.
A dor, desde uma sensação de desconforto a um horrível e insuportável incômodo é um fato que existe na experiência humana desde o principio dos tempos, é uma questão de existência. Claro que, principalmente em nossa sociedade ocidental, onde se cultua o conforto, pensar em dor, por menor que seja, é um fato que só em falar já causa repulsa! Conheço pessoas que temem mais a famosa cadeira do dentista do que a 3ª guerra mundial! Pois bem, como dizia, nossa sociedade despreza o valor da dor e cultua o conforto – somos a “geração analgésico” – “Vai um tylenol aí?” A famosa frase da campanha publicitária de um analgésico tornou-se quase que um hino nacional: “tomou doril, a dor sumiu!” Nossa geração, a “geração analgésico”, tem ultrapassado os limites da maldade, da falta de consciência, do egoísmo, da crueldade e da misericórdia porque anda entorpecida, na verdade ela está doente e não tem conhecimento, e sabe por quê? Porque não dói!

Buscamos remédios para a dor e não nos preocupamos com a doença, a causadora de tudo. O homem busca os analgésicos oferecidos pela religião, moralidade, ética, música, entretenimento, drogas, filosofia, mas a doença do pecado está incubada em sua alma, corroendo sua vitalidade como um câncer e matando-o sem qualquer piedade. Tenho filhos pequenos e sei como é comum se machucarem. Quando digo: “não mexa nisso!”, ou “não coloque sua mão aí” e eles o fazem, sei que voltarão aos prantos porque ao infringirem uma orientação que lhes pouparia de transtornos, resolveram arriscar e no mínimo aprenderam, pela dor, que fazer aquilo realmente não é bom.
Lembremo-nos de que a dor foi mencionada pela primeira vez na Bíblia Sagrada, em primeira análise, como uma maldição advinda do pecado: “E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos…” (Gênesis 3:16a). Podemos até pensar: “Deus estava mesmo zangado com a raça humana!”. Mas eu vejo essa questão de um outro ponto de vista. Minha pergunta é: como seria o mundo se não houvesse dor? Como seria quebrar um braço e não sentir que o membro está avariado? Como seria ter um tumor na cabeça e esta não nos avisar, por meio da dor, que é preciso tratar a enfermidade? Como seria ter uma ulcera nervosa e não saber que ela está ali? Como seria se queimar e não sentir? Vou além: quantas vezes você foi ao médico só porque estava sentindo uma dor, um desconforto? Quantas doenças tratamos e quantos males evitamos porque simplesmente algo começou a doer! Portanto vejo que essa sentença divina sobre o ser humano tem mais a ver com misericórdia do que com crueldade.

Analisemos, pois, essa questão de Gênesis 3.16 sob um prisma espiritual, sob a perspectiva do pecado e da redenção. Quando o homem pecou, quando caiu, perdeu o senso de limites, não sabia mais até onde podia ir. Deus disse para Jonas que os ninivitas não sabiam discernir entre a mão direita e a mão esquerda (Jn 4.11). Com a queda, o homem perdera, ainda que não totalmente, os referenciais de bondade, justiça, amor e misericórdia, e não sabia mais diferenciar atitudes de desobediência ao Criador (mão esquerda), das ações de obediência (mão direita). Seria como estar cozinhando e queimar o braço sem sentir o dano! A dor impôs limites à maldade humana, freou seu extermínio prematuro e nos faz correr atrás de tratamento, de remédio.

A morte de Jesus na cruz por nossos pecados, pelo nosso resgate, seu sofrimento indescritível, sua agonia lancinante é a expressão máxima de dor por causa da mais terrível enfermidade: a da alma! De certa forma, o homem havia sido poupado dessa dor em sua totalidade, mas agora ela recaía sobre o Cordeiro de Deus que se oferecera um nosso lugar. “O calvário mostra como os homens podem ir longe no pecado, e como Deus pode ir longe para salvá-los” (H. C. Trumbull). Toda a dor da separação que o pecado ocasionara entre Deus e o homem (Isaías 59.2), agora era sentida pelo Filho do homem. Dor no corpo, mas também dor na alma! O célebre filme “A paixão de Cristo” tenta expressar um vislumbre das dores físicas sentidas pelo Cristo, mas o que mais lhe doeu foi o meu e o seu pecado que recaíam sobre os ombros do imaculado Filho de Deus.

Quero aqui levá-lo a refletir um pouco sobre essa experiência da dor do nascimento, da existência e principalmente da dor do Calvário, em relação à nossa experiência de conversão, de novo nascimento. Jesus disse: “A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem” (João 16:21). Sabemos que a dor está atrelada ao nascimento. São as dores de parto (Gn 3.16). Um parto normal, natural, envolve dor! Para um ser humano vir ao mundo faz-se necessário que ocorra num contexto de dor e agonia. No novo nascimento, ou seja, na verdadeira conversão, onde ocorre a transformação de nossas vidas o contexto é o mesmo, pois as verdades são paralelas.

Na tentativa de acabar com a dor do parto, a ciência começou a aplicar uma série de sedativos que poupavam as mulheres de qualquer incômodo, ou seja, a mãe é sedada para o bebê nascer. Mas estudos indicam uma forte relação entre a natureza do parto e o andamento da vida infantil. Constatou-se que a primeira geração, que nasceu com o largo uso desses procedimentos, foi a que mais teve problemas com drogas. De alguma forma, a maneira como se nasce, determina o curso inteiro da vida. Agora, como essa geração de crentes tem “nascido”?

Não gostaria de admitir, mas vemos uma multidão de crentes e até mesmo de igrejas inteiras nascendo sem o fundamento da dor por meio do arrependimento. Arrepender-se é sentir profunda dor por haver ofendido a Deus. A intensidade do nosso arrependimento determina diretamente a qualidade da nossa vida espiritual. Hoje temos presenciado em muitos púlpitos uma mensagem bíblica diluída numa forte solução de humanismo, onde se apela para o bem-estar do homem como motivação para aceitar o Reino de Deus: “venham para Jesus e dêem adeus à crise, ao sofrimento e sejam bem-vindos a um mar-de-rosas!”. Isso é no mínimo uma tragédia! Essa falta de dor no parto, ou seja, de uma experiência com a dor do arrependimento tem suscitado uma geração de cristãos problemáticos, egoístas e superficiais. Temos tido medo de perder os bebês espirituais e como conseqüência formamos uma prole de crentes bizarros que estão em busca de calmantes para viverem dopados e fora da realidade. Sabemos que o uso freqüente de um sedativo acaba deixando o organismo do paciente imune àquela droga. A tendência é buscar uma medicação que seja cada vez mais forte para aplacar aquela dor. O que acontece é que temos percebido um apelo cada vez maior a esses mecanismos no cristianismo de hoje, o resultado são mensagens cada vez mais fora do contexto bíblico e crentes cada vez mais problemáticos: “O que você quer ouvir? Podemos lhe oferecer!”, “o que é mais popular? então vamos falar!”. A questão é que em contextos como esse, igrejas têm mais se parecido com uma clínica de aborto do que com uma maternidade onde os bebes nascem de forma saudável e promissora.

O novo nascimento necessariamente deve passar pelo arrependimento. Conversão não se fabrica com mensagens superficiais e voltadas para o conforto do velho homem, mas é algo que se produz com a genuína pregação do Evangelho de Arrependimento. Assim começou o ministério de João, o Batista: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.1,2), o ministério terreno de Jesus: “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 4:17), dos primeiros discípulos: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38) e “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (Atos 3:19). O que nos faz pensar que o conteúdo da nossa pregação deve mudar em dias como esses?

Em todos os tempos onde a mensagem de arrependimento tem sido pregada, é onde se têm produzido os santos mais notáveis da história. Paulo diz: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte” (2 Coríntios 7:10). Há uma dor, que deve nos aproximar de Deus e esta é a do arrependimento, que é a consciência de quão longo estamos de Deus, do quanto temos ofendido Sua santidade e do quão pecadores somos. Isso nos leva a sentirmos a dor que produz salvação e verdadeira alegria e paz. Devemos admitir, ser cristão dói!
Não estou aqui encorajando o asceticismo, ou seja, a busca da dor e do sofrimento como uma ferramenta de achar salvação e graça diante de Deus, mas quero animar a todos que nesse momento estão diante de uma dor, quer seja na alma ou no corpo, a perseverarem no Senhor, sabendo que podemos tirar mais proveito dela do que da própria alegria e prosperidade: “Porque todas as coisas existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus. Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas. Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial” (2Coríntios 4.15-5.2).

Um terno abraço!

Marcos Arrais

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