Discípulos em Oculto?

“Depois disto, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, ainda que ocultamente… E também Nicodemos, aquele que anteriormente viera ter com Jesus à noite…” (João 19:38a;39a).

É um tanto intrigante a colocação que o evangelista João faz acerca de Arimatéia e Nicodemos. Esses dois homens tinham grande influência na época e não assumiram sua apreciação por Jesus.

Acompanhavam o ministério de Cristo, presenciaram curas, ouviram seus ensinamentos, mas à surdina, na penumbra. Não tinham coragem de se expor e serem chamados de discípulos de um filho de carpinteiro da Galiléia que saia por aí dizendo que era O Filho de Deus!

Acho bastante interessante como essa situação se aplica a uma multidão de “Arimatéias” e “Nicodemos” que conseguem manter duas identidades, dois linguajares, dois disfarces. À semelhança desses dois homens piedosos, e aqui não quero comentar e nem julgar a atitude de serem discípulos em oculto, mas apenas aproveitar a inspiração do texto para fazer uma comparação com os dias de hoje, muitos se dizem discípulos de Jesus, mas sem dar qualquer evidência àqueles que estão ao seu redor.

A questão é: como pode a luz não iluminar? Como pode o sal não salgar? É um tanto paradoxal afirmar que somos discípulos, mas ao mesmo tempo mantermos uma postura tão alheia a essa questão, que não fazemos qualquer diferença. Jesus disse que se o sal se tornar insípido, para nada mais presta a não ser para ser lançado fora e ser pisado pelos homens (Mateus 5.13). Muitos que se dizem discípulos de Jesus não têm capacidade de dar sabor e muito menos de iluminar, pois estes mesmos não passaram por uma experiência verdadeira.

Veja, Nicodemos, um homem respeitado e estudioso da lei, ou seja, um intelectual da época, versado em teologia, filosofia, línguas etc, foi até Jesus em certa ocasião à noite (João 3). Como é isso mesmo? De dia no meu trabalho eu “pinto o sete” e à noite eu coloco a bíblia debaixo do braço e assumo uma aparência religiosa? Aquele que está com sua vida sintonizada em Deus, procura fazer as suas obras em pleno dia: “Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras” (João 3:20), “porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas” (1 Ts 5:5). Não estou me referindo a pessoas que dão duro o dia todo e que aproveitam a noite para irem à igreja, ou à célula etc, e muito menos aos nossos irmãos heróis nos países onde o Evangelho é ilegal e que, por amarem Jesus, sofrem represália por parte das autoridades. Refiro-me àqueles que não querem ser identificados como discípulos, aqueles que não querem ser vistos andando com Jesus quando tem a escolha de fazê-lo.

Arimatéia, diz a Bíblia, “esperava o reino de Deus” (Marcos 15.43), mas mesmo assim não tinha coragem de manifestá-lo. É triste que muitos queiram desfrutar o Reino, viver as bênçãos do Reino, assentar-se no Reino, mas não estão dispostos a assumirem suas identidades de cidadãos desse Reino. O verdadeiro discípulo de Jesus espera pelo Reino, mas também se coloca como canal para a manifestação dele nessa terra. A questão é que muitos esperam apenas um reino que será manifestado na vida pós-morte. Vivem uma vida desgraçada nessa terra à espera de um porvir que mudará tudo, enquanto poderiam viver uma vida plena de satisfação espiritual e cheia do Espírito e de gozo celeste. Vida eterna é a qualidade de vida que podemos desfrutar no hoje, afinal de contas no momento em que aceitamos a Jesus como Senhor e Salvador, já entramos na dimensão da plenitude da bênção de Cristo (Ef 1.3). Esperar o reino não é tudo. Essa atitude passiva não nos fará mudar de vida e muito menos a de outros ao nosso redor. Precisamos buscar e nos empenhar pela manifestação do Reino de Deus nessa terra e em nossa geração.

Um outro caso é o de Pedro, discípulo assumido de Jesus, mas que em um dado momento tenta esconder-se para não ser notado pelas pessoas. Não sei o que é mais triste, passar a vida servindo secretamente, ou andar ao lado de Jesus e negar o Seu nome. Por mais que Pedro quisesse se disfarçar, assentando-se à roda dos escarnecedores naquela fogueira, não havia como negar: “Você é um deles, porque o teu modo de falar o denuncia” (Mateus 26.73). É vergonhoso esconder-se e mais ainda negá-lo! Pessoas assim passam a vida seguindo Jesus de longe (Lucas 22.54), ou seja, estão sempre mantendo uma “distância de segurança” e sempre prontas a “saírem pela tangente” quando as coisas ficam apertadas. São discípulos por conveniência e que não estão dispostos a carregar a cruz.

Lembre das palavras de Jesus: “Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte” (Mateus 5:13,14). Entendamos que no reino de Deus não existe a figura do “agente secreto de Cristo”, mas de luzes que brilham tão intensamente que é impossível esconder o seu fulgor. Não há como colocar sal na panela e a comida não ser temperada. Brilhar e salgar é algo tão natural ao verdadeiro discípulo, quanto uma semente de manda gerar uma mangueira, porque está dentro de nós essa essência!

Fujamos à mentalidade de “discípulos secretos” e busquemos anunciar ao mundo nosso amor pelo Senhor. Que sejamos esses apaixonados que não escondem sua devoção ao Senhor que deu Sua própria vida por nós. Que, a exemplo daqueles jovens na Babilônia, nossa vida seja tão discrepante do mundo que não haja como nos confundir com aqueles que se curvam diante do desse sistema.

Um terno abraço,

Marcos Arrais

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